Acabada que está a leitura do livro de Saramago, "Memorial do Convento", queria deixar aqui algumas breves palavras.
O livro é um ensaio sobre a dor do povo, da arraia-miúda. Enquanto os reis D. João V e Maria Ana se refastelavam com as suas crendices e minudências fúteis, o povo, o verdadeiro obreiro de tudo o que se fazia no país, expunha-se às mais variadas dores. Baltasar e Blimunda são o exemplo, bem como todos os que trabalhavam nas obras do Convento.
Saramago tem um excelente domínio do léxico português, em especial os regionalismos. Tenho a impressão que os seus detractores não aceitam essa elevação do miudinho à grandeza literária. Reflecte, sem dúvida, as raízes do escritor.
Como não há bela sem senão, há duas sensações negativas que me assolaram:
1) a escrita de Saramago é seca, árida, sem qualquer sumo literário, o que parece contradição com o que acabei de escrever em cima. Não é. Uma coisa é dominar o léxico, outra é fazer saborear ao leitor o sumo das palavras no contexto do enredo.
2)as regras da pontução não existem para Saramago. No meu entender, a perfeição da escrita provém também dos compassos que a pontuação permitem ao leitor. Uma pauta tem que se exemplarmente anotada sob pena de o executante não perceber o que lá está escrito.
Até à próxima leitura.
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